O ano está começando, e com ele uma contagem regressiva: agora tenho q mergulhar de cabeça nessa pesquisa, que precisa ser entregue até agosto.
Apesar de ter já bastante estruturados alguns circuitos capoeirísticos nas paisagens q eu frequento (páginas e amigos no facebook, canais no youtube, lista de perfis no twitter), e assim ser constantemente atualizada com novos materiais para análise, eu tenho me sentido relutante em entrar logo de uma vez nessas errâncias, e muitas vezes me recuso mesmo a olhar para o que me aparece na frente. Culpo um pouco o caos irremediável do apocalipse anual, mas também a hesitação diante do ambiente vivo da floresta, onde todos os meus sentidos precisam estar ligados e atentos o tempo todo. Ou diante do oceano que me chama a longas navegações.
Mas tentando timidamente começar, vou escrever um pouco sobre um canal que descobri há alguns meses por dica da amiga Lara Lombardi, e que provavelmente se tornará um dos principais atores da análise: o abeiramar.tv
Como o próprio nome sugere, o abeiramar.tv se propõe praticamente a ser uma webTV sobre capoeira. O slogan que acompanha o nome diz apenas “capoeira online”.
Hoje resolvi assistir um vídeo que tinha sido subido para o canal há algumas semanas. Trata-se de um jogo entre os capoeiristas Itapuã Beiramar e Guaxini do Mar. Logo de início, o video deixa claro que a roda em questão se desenrola em Londres, em dezembro do ano passado.
É um vídeo bem feito, com alguns recursos a mais do que os habituais e abundantes videos amadores, como várias câmeras, zoom e câmera lenta. O jogo é bastante bom, e o som razoável.
Mas a princípio o que mais me chama a atenção é a sua tonalidade esverdeada, consequência de uma luz fluorescente.
O ambiente em que se desenrola o jogo é uma sala pequena, acarpetada, com pequenas janelas. As músicas e o coro repetem sempre o tema do mar e da praia – “à beira mar” – e do lado de fora da pequena sala provavelmente temos a neve de um rigoroso inverno inglês. Tudo bem diferente das paisagens que provavelmente inspiraram estas músicas, bem distante do ar livre e do clima ameno em que se fizeram rodas de outrora.
Estou lendo “A Capoeira Escrava”, de Carlos Eugênio Líbano, e inevitavelmente fiquei pensando, diante deste jogo de angola muito bem jogado e teatralizado, como seria a capoeira angola antes de Pastinha, mais perto do século XIX de que trata o livro. Certamente, muito diferente desta que reivindica a tradição-raiz, ainda que isto seja perfeitamente legítimo do ponto de vista de quem tece a própria cultura (desde que não transformado em extremismos que tolham a criatividade necessária à sua continuidade).
Temos apenas fragmentos do que poderia ter sido aquela capoeira das ruas das cidades escravas, a capoeira “à beira mar” das zonas portuárias, onde vidas e mercadorias eram trocadas constantemente. Temos apenas os relatórios policiais de Carlos Eugênio, apenas os testemunhos orais sinuosos e lacunares dos mestres que vieram depois.
É a tarefa de quem produz e reproduz a cultura construir as pontes e os sentidos entre esses fragmentos? Não há verdade possível, mas há muitos caminhos possíveis no esgarçar e cozer da tradição. Não foi assim que os negros escravizados, a partir dos fragmentos que lhes restavam, e a partir de tantos retalhos diversos e irreconhecíveis de outras etnias, reinventaram a sua cultura?
É talvez o que está fazendo o abeiramar.tv e seus atores quando colocam conteúdo na rede. Eles estão ligando a sala esverdeada em algum lugar de Londres aos mares do Brasil e também a outros mares. E em todas as beira-mares, saberão que mesmo no inverno londrino, dentro de uma pequena sala com luz fria, é possível fazer uma roda banhada pelo saber que se encontra disperso na rede.
Está à beira-mar todo aquele que possa ser banhado pelo oceano informativo.

Gostei da metáfora marítima à la Atlântico Negro! Vendo o vídeo, parece que eles estão em um submarino, de tão apertado e esverdeado!