Há alguns dias, me deparei com uma coisa interessante, tanto em termos de aplicativo quanto de conteúdo: o jornal online “The Ginga Daily“, do grupo Capoeira Brasil Tempe, da cidade de Tempe, Arizona (EUA).
Aparentemente, a plataforma Paper.li é uma espécie de curadoria de conteúdo, feita por pessoas mesmo, e não por robôs (no sentido informático do termo). Se entendi bem, vc pode criar um jornal escolhendo quais são os tópicos de interesse, a partir dos quais ele será atualizado constantemente com conteúdos selecionados pelos curadores.
O grupo Capoeira Brasil Tempe foi o primeiro que encontrei na rede social Google Plus, há alguns meses. Hoje, a página está bastante recheada de fotos e postagens.
Pelos cordões utilizados pelos capoeiristas nas fotos, suponho que o grupo seja filiado ao Senzala, grupo de capoeira regional bastante expressivo no exterior. Demorei um pouco para conseguir encontrar o mestre ao qual o grupo é ligado, e assim que consegui, não no Google + mas no site do grupo, verifiquei que minha hipótese estava meio correta.
O grupo é ligado não a um, mas a dois mestres – o que é bastante raro de se ver. São eles: o mestre Boneco, aparentemente o mais velho e fundador do grupo; e o mestre Caxias, formado pelo Mestre Boneco, pelo que entendi. Ambos são brasileiros residentes nos EUA. O brasão do grupo, no entanto, não faz menção direta a nenhum dos dois, mas sim ao prof. Trovão, aluno graduado do grupo, e possivelmente americano.
O mestre Boneco foi membro do grupo Senzala por 18 anos, até que, em 1989, saiu para formar o grupo Capoeira Brasil, uma rede com afiliados em todos os Estados Unidos. O Capoeira Brasil Tempe, que pensei a princípio ser um pequeno grupo no Arizona, é parte de um grupo com afiliados nos Estados Unidos, Austrália, Alemanha, França e Países Baixos, como afirma seu verbete na Wikipédia.
E pelo que estou percebendo, mesmo antes de fazer uma análise exaustiva, é que não existe nenhuma centralização nas plataformas digitais de comunicação dos grupos Capoeira Brasil em cada localidade. Ainda que pertencentes a um “macro grupo”, institucionalizado, cada grupo constrói a sua “casa” na rede, muitas vezes a partir de plataformas replicáveis e customizáveis, de acordo com suas próprias necessidades.
Bem, voltando ao The Ginga Daily e à pg do Capoeira Brasil Tempe no Google +, há algumas coisas que eu gostaria de destacar.
Em primeiro lugar, o visual “gringo” de ambos os ambientes. A linguagem iconográfica, os fenótipos das pessoas retratadas, o idioma utilizado, têm poucos elementos que tragam à tona alguma brasilidade.
Em segundo lugar, as traduções e significados que o grupo emprega para falar da capoeira. Podemos observar tanto no The Ginga Daily quanto nas postagens do Google + que os assuntos escolhidos são bastante variados, mas tendem a ter um enfoque na educação física: artigos como “como se alongar”, “exercícios complementares”, “benefícios da capoeira ao cérebro” ou “benefícios da capoeira às crianças” são alguns exemplos disso. Talvez isso demonstre, por um lado, uma estratégia de tradução cultural – uma vez que estes discursos podem ter mais penetração em certos públicos e driblar alguns preconceitos – e por outro, uma estratégia mercadológica, pois, afinal, eles sobrevivem como uma academia, vendendo aulas. Seja pela capoeira como um fim ou como um meio, o importante é conseguir trazer alunos.
Provavelmente, se olharmos para os eixos temáticos escolhidos para a seleção de conteúdo do The Ginga Daily, encontraremos bastante sobre exercícios e artes marciais, e nem tanto sobre africanidades, por exemplo.
Em terceiro lugar, eu gostaria de destacar a influência da cultura letrada nas estratégias de comunicação do Capoeira Brasil Tempe. O fato do grupo ter escolhido fazer um jornal, ainda que online, o situa mais perto da cultura tipográfica que da cultura oral típica da capoeira do séc. XX. A mesma característica se verifica na pg do Google +, com grande presença de artigos escritos e frequentemente atravessados em maior ou menor grau pelo discurso científico.
Eu me pergunto às vezes se essa seria uma tendência da capoeira a partir de sua globalização e sua digitalização: se tornaria uma cultura progressivamente escrita? Seria esse um fator de “embranquecimento” da capoeira, necessário a novas negociações culturais?
Ainda assim, gosto de me lembrar sempre do que me diria o tio McLuhan: o digital é um meio audiotáctil e a capoeira está se tornando não uma cultura escrita, mas sim hipermídia – a escrita está inclusa com certeza, mas também os vídeos e as imagens e a percepção em mosaico, e não em linha.
Vale lembrar o sucesso que fazem os videos entre os capoeiristas em rede.
















