Yes, eles são autodidatas!

O site Capoeira Social Clube se mostrou um belo exemplo para análise, mas o que é ainda melhor é que ele me abriu uma conexão para algo ainda mais impressionante: o grupo Capoeira Mogador: pelo que eu vi no Capoeira Social Clube, e na página do próprio grupo no Face, eles parecem ser um grupo de capoeiristas autodidatas, em Essaouira, no Marrocos, que aprenderam a maior parte daquilo que sabem a partir de videos no Youtube.

Se isso for verdade, o Capoeira Mogador vai se tornar um dos melhores estudos de caso da minha pesquisa. Depois de muitos dias de hesitação, resolvi finalmente dar meter as caras no circuito e entrar em contato com eles pela página doFace:

Página do grupo no Facebook em 16 de janeiro de 2012

Quero registrar que essa foi a primeira vez que eu me apresentei, diante do meu circuito, como pesquisadora deste tema que venho estudando há dois anos. Ponto pra mim. Ironicamente, eu não sei se vou obter resposta. A última atualização do grupo é de novembro, e até agora ninguém me respondeu.

Talvez eu tenha q sair mandando mensagem para os administradores do grupo, Hadji Wadie e Fadwa Aboubakr. Mas vou segurar um pouco mais a minha ansiedade internética e esperar mais um dia ou dois.

Enquanto isso, vou pesquisando no Youtube os videos do grupo, pra ver se consigo depreender um pouco da história.

Parece que eles participaram até do Arabs Got Talent (existe isso, minha gente!). Eis o video, postado pelo próprio canal de TV (MBC), em 12 de março de 2011.

Não são permitidos comentários a este vídeo, o que provavelmente é uma configuração do canal. Em todo caso, a distância linguística comprometeria bastante a compreensão… Vale registrar que metade do video eu não consegui entender praticamente nada.

De qualquer forma, a performance deles é impressionante. Neste outro video, de 2007, eles fazem uma apresentação de maculelê, também sobre um palco, e também com uma performance bastante invejável:

No próximo video, podemos vê-los jogando um pouco de capoeira, ao som de uma música cantada em português. O jogo é fluido e harmônico, capoeira regional muito bem jogada. O video é de 2007:

Em uma busca por “capoeira mogador” no Youtube, a página exibe muitos vídeos compartilhados em 2006, 2007 ou 2008. No entanto, alguns vídeos datam de 7 meses até uma semana atrás, de certa forma uma prova de que o grupo continua ativo. O vídeo abaixo, compartilhado em 12 de janeiro de 2012, mostra um grupo jogando no calçadão próximo à praia. Mas além disso, ele também é fantástico por conter, na trilha sonora, uma música sobre capoeira cantada em uma língua desconhecida.

Perfis do Youtube

Grande parte dos vídeos mais recentes foi compartilhada pelo usuário ayouchsouiri, auto-intitulado Saw Boy (“garoto serra”), assim como alguns videos colocados por ele no Youtube. Ele pode ser visto na maioria dos vídeos, algumas vezes jogando com os companheiros, e muitas vezes fazendo exibições individuais de golpes e acrobacias diante da câmera.

Canal de ayouchsouiri (Youtube) em 23 de janeiro de 2012

http://www.youtube.com/user/ayouchsouiri

Abaixo, podemos ler, com alguma dificuldade: “no room for traninig . no prof. just my god with us and best friend ;) ^^ thanks averybody”

Esta pode ser uma frase sintomática das transformações nas formas de ensinar e aprender capoeira pelo mundo.

Capoeira Mogador também tem um canal oficial/institucional (http://www.youtube.com/user/TheCapoeiraMogador), criado em 11 de janeiro de 2012.

Canal de Capoeira Mogador no Youtube em 23 de janeiro de 2012

O canal é bem recente e, apesar de ter compartilhado apenas um vídeo de capoeira e um do pôr-do-sol em Essaouira, conta até agora 117 exibições. O único inscrito, ali contabilizado, sou eu.

Outros usuários que compartilham videos do grupo são: yassinejil, Essaouiragirl e suicidier. São provavelmente membros ou amigos do grupo. Seus envios de videos são variados, sendo apenas uma pequena parte relativa ao grupo Capoeira Mogador. Mas podemos ver pelos seus feeds (videos que gostaram, e que portanto passam a constar no canal) vários outros videos de capoeira.

Bem, acho que isso é tudo que a Web pode me dizer, por enquanto, sobre o Capoeira Mogador… O próximo passo é de fato conseguir alguma interação com essas pessoas.

Apenas uma informação para fechar o post: graças às bênçãos do conhecimento livre e coletivo fornecido pela Wikipédia, acabo de descobrir que Mogador, nome que o grupo escolheu para si, era na verdade o nome português da cidade de Essaouira no séc. XVI. Terá essa longínqua presença portuguesa facilitado de alguma forma a proximidade com uma cultura brasileira como a capoeira?

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On the maps!

Como prometido, os últimos dias foram de reestruturação geral da casa. Uma repaginada no visual, alguma informação sobre quem caralhos escreve, e finalmente, organizar a bagunça de links que coloquei aqui até agora, separando por tipos. Falta só revisitar as páginas e conseguir explicar minha pesquisa de maneira um pouco mais clara, tarefa que obviamente deixei por último devido à sua complexidade.

Mas mesmo não completamente pronto, ontem eu desbloqueei o blog para os motores de pesquisa. O que basicamente significa que ele está mergulhado no hipertexto tanto quanto o meu circuito de estudo.

Eu encontrei algumas dificuldades na arrumação da bagunça (o que pra quem me conhece não é surpresa nenhuma), principalmente na classificação dos links, ou seja, dos ambientes digitais que visitei e decidi manter uma conexão por aqui. Por enquanto, estou dividindo em: sites; blogs; páginas do facebook; outras redes sociais; wiki.

A dificuldade era, muitas vezes, diferenciar sites de blogs. Um site pode ser montado em plataforma blog, por exemplo. Por outro lado, muitas vezes um site contém um blog. E alguns sites parecem conter comunidades, o que eu vou ter que checar e decidir se é vantajoso criar mais uma categoria. Enfim, ainda não sei se divido arbitrariamente pelas tecnologias de arquitetura (por exemplo: blogs são feitos em blogspot ou wordpress; comunidades podem ser feitas em joomla ou hospedadas em plataformas de redes sociais; e sites são programados na unha mesmo) ou se vou optar por uma classificação menos artificial (como tenho feito), de entender a organização da informação, o estilo, o dinamismo de atualização e as formas de interatividade.

Acho q devo seguir este segundo caminho para dar nome às regiões do meu mapa. Tenho que lembrar de arranjar algum bom guia que me ajude.

 

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Ano novo, visual novo

Aqueles que me conhecem sabem que eu sou um tanto apegada às coisas, e que mudanças para mim muitas vezes são difíceis…

E eu não estou falando de mim, mas sim deste lugar que venho habitando há dois anos – o meu blog. Abrindo o painel de controle, há alguns dias, eu reparei que ele ainda está bloqueado para motores de pesquisa.

Está certo, eu o fiz assim. Mas se quero levar a sério a minha metodologia de pesquisa em ambientes digitais – que basicamente significa percorrer os circuitos e também me deixar ser percorrida por eles – isso não pode continuar assim. Assim sendo, preciso preparar este blog para estar realmente na rede, nos mapas, nas errâncias de outros, construindo links no hipertexto e nós na rede.

Por isso, coloco aqui um dos últimos registros do seu visual e arquitetura como foram até hoje.

Visual do blog em 11 de janeiro de 2012

Eu provavelmente não mudarei o tema, pois gosto muito dele. Mas a imagem do cabeçalho, da qual também gosto muito, terá de sair. Ela por muito tempo representou para mim o que eu venho chamando de roda em rede – formas culturais tradicionais aparentemente fechadas, mas que estão ligadas a uma complexa rede que as alimenta e as coloca em devir. São, aparentemente, forças de vertiginosa desintegração da estabilidade, mas que na verdade asseguram a perpetuação de seu dinamismo interno.

Também me lembra bastante do conceito de “margens como enzima”, de Barbero (1997).

Mas enfim, talvez ela deva ser substituída por algo mais capoeirístico. Provavelmente será esta imagem aqui:

Ela não é mais bonita, mas fala mais aos que estão de fora das minhas pirações.

O nome do blog, provavelmente, será alterado para algo mais próximo do título da minha pesquisa.

Os textos das páginas também precisam ser melhorados, para que as pessoas consigam entender o que eu estou fazendo (tarefa difícil para o pesquisador, que muitas vezes nem entende a si mesmo).

Enquanto escrevo esse post, já estou fazendo algumas mudanças. A meta é chegar ao fim dessa semana com cara nova e pronto para se jogar nesse marzão.

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Capoeira Social Clube

Este post já ficou no rascunho uns três meses e já faz três dias que estou tentando escrevê-lo… rs.

Enfim, quero comentar um pouco sobre este site que achei no fim do ano passado, o Capoeira Social Clube (http://voltadomundo.com/capoeira/).

Trata-se de uma comunidade joomla de aparência bem simples (à primeira vista, parece inclusive um site de outras épocas da Web). O que chama atenção logo de cara é a peculiaridade da imagem da home: a ilustração mostra o planeta Terra, com dois capoeiristas jogando em cima, em meio ao universo cheio de outros planetas e estrelas.

É uma representação bem interessante da capoeira globalizada, mas que não se detém no globo: existe um Unvelt (entorno), o universo, que o envolve e ao mesmo tempo expõe a sua pequenez.

O planeta aparece circundado por um anel onde se lê “volta do mundo”, uma expressão bastante comum no mundo da capoeira, utilizada para designar uma determinada performance dos capoeiristas na roda, um momento em que ambos interrompem o jogo e caminham pelo espaço interno periférico do círculo.

Abaixo da figura, vê-se o perfil do Corcovado, indicando que os “curadores” do site têm raízes no Rio de Janeiro, o que se confirma nos textos. No entanto, pouco saberemos a mais sobre os autores: parece haver uma ligação entre o site e o grupo Senzala, de Mestre Peixinho, mas em lugar algum encontrei a identificação dos autores.

No cabeçalho da página, logo abaixo do nome, pode-se ler o slogan “uma roda aberta”. Esta frase, somada à figura, aponta a visão dos autores sobre a capoeira hoje e sobre a iniciativa do site. Na verdade, parece bastante com a própria ideia da minha pesquisa… Eles parecem entender o site como um espaço de compartilhamento de informações com todos aqueles que habitam o “planeta Terra” ou o “universo da capoeira”. O site torna-se um espaço de difusão da cultura pelo e para o mundo.

Algumas frases revelam também o posicionamento dos autores sobre o próprio devir da cultura, no caso, da capoeira: “o CAPOEIRA SOCIAL CLUBE gosta da Idéia de estar em movimento.” Ou ainda, afirmam que a capoeira é “um Universo que não para de crescer”.

Neste contexto e com essa visão de mundo, o site possui hj uma considerável riqueza de conteúdos sobre capoeira, com as abordagens mais diversas: artigos sobre a história da capoeira, música, instrumentos, polêmicas (Ex: a capoeira veio da África?), datas comemorativas, vestimentas, dicas de saúde, legislação, etc. Há também espaço para comercializar alguns produtos exclusivos, como camisetas.

Destaca-se a seção dedicada a crianças, com personagens e conteúdos hipermídia especialmente desenvolvidos para este público.

Além das hipermídias para crianças (“Tum tum a história que eu sei”), o site disponibiliza mais alguns projetos especiais, como o “Álbum de figurinhas“: um ambiente hipermídia que simula um álbum com figurinhas de capoeiras históricos – e de qualquer outro capoeirista que quiser se cadastrar.

A própria “loja” do site é uma hipermídia: http://voltadomundo.com/store.html

A página sobre academias de capoeira no Brasil e no mundo será mais do que útil para a minha pesquisa, pois funciona como um verdadeiro guia de grupos, cada qual com seu respectivo site.

Mas uma das seções que mais me chamaram a atenção foi a Diário de Bordo. Aparentemente, trata-se de uma seção dedicada a falar sobre experiências de ensino da capoeira em outros lugares do mundo. No artigo sobre a capoeira no Marrocos, encontrei o seguinte trecho:

“Mesmo sem a presença de instrutores, grupos de capoeiristas estão brotando em diversas cidades. É o caso da associação Capoeira Mogador, de Essaouira – cidade turística na costa marroquina. Foi formada por jovens que descobriram a capoeira na Internet, graças a sites como You Tube.

Um deles, Redouan, de 27 anos, fabricou um berimbau. “Tinha mil defeitos. A corda estava mal-amarrada, o som estava errado, mas um turista me viu andando na praia com o instrumento e me perguntou se eu era capoeirista”, conta Redouan. “Para minha sorte, ele era capoeirista e nos deu algumas aulas.”

No Cairo, um grupo de 20 pessoas está treinando sozinho, enquanto espera que alguém responda a um anúncio de “busca-se professor” no site www.capoeira.com”.

Apenas este parágrafo já me diz que precisarei correr atrás desta experiência, que provavelmente vai merecer um post (ou mais) só pra ela.

Vale notar que a seção Diário de Bordo é a mais comentada do site, e os comentários, vindos quase sempre dos sujeitos retratados nos artigos, são os mais efusivos. São também o único lugar onde encontrei alguma manifestação mais pessoal dos autores.

OBSERVAÇÕES:

Bem, para mim, o que fica de mais importante deste site, além dos outros caminhos hipertextuais que ele abriu:

1. A linguagem textual e pictórica revela uma grande consciência dos autores com relação à situação global da capoeira: sua unidade de medida é nada menos que o planeta Terra. Além disso, eles se mostram impelidos a compartilhar informação na rede a partir de seu site, colocando-a na “roda aberta” que é a rede e a própria cultura da capoeira, em expansão e transformação.

2. Apesar de, enquanto ambiente digital, o site apresente condições bastante reduzidas de interatividade (que se limita, basicamente, aos comentários, que são pouco utilizados), restringindo a inserção de conteúdo aos autores anônimos, existe uma disposição ao diálogo e um incentivo à participação dos usuários. Além da seção “Cadê Você”, em que o usuário pode enviar ao site diversos tipos de conteúdos para serem publicados, os autores, em seus textos, constantemente apelam pela participação do leitor, e abrem um canal de envio de conteúdo.

Flanando pela rede hoje, provavelmente por alguma porta aberta pelo Capoeira Social Clube, encontrei mais um achado: uma página, no Facebook, sobre o recém-falecido Mestre Peixinho, fundador do grupo Senzala. A página virou uma espécie de centro de memória sobre o mestre, e o curioso é que ele (seu perfil) continua postando…

http://pt-br.facebook.com/pages/Mestre-Peixinho/147483461990395

Mas isso é assunto para um próximo post.

Ufa, como isso é difícil, gente!

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À beira-mar

O ano está começando, e com ele uma contagem regressiva: agora tenho q mergulhar de cabeça nessa pesquisa, que precisa ser entregue até agosto.

Apesar de ter já bastante estruturados alguns circuitos capoeirísticos nas paisagens q eu frequento (páginas e amigos no facebook, canais no youtube, lista de perfis no twitter), e assim ser constantemente atualizada com novos materiais para análise, eu tenho me sentido relutante em entrar logo de uma vez nessas errâncias, e muitas vezes me recuso mesmo a olhar para o que me aparece na frente. Culpo um pouco o caos irremediável do apocalipse anual, mas também a hesitação diante do ambiente vivo da floresta, onde todos os meus sentidos precisam estar ligados e atentos o tempo todo. Ou diante do oceano que me chama a longas navegações.

Mas tentando timidamente começar, vou escrever um pouco sobre um canal que descobri há alguns meses por dica da amiga Lara Lombardi, e que provavelmente se tornará um dos principais atores da análise: o abeiramar.tv

Como o próprio nome sugere, o abeiramar.tv se propõe praticamente a ser uma webTV sobre capoeira. O slogan que acompanha o nome diz apenas “capoeira online”.

Hoje resolvi assistir um vídeo que tinha sido subido para o canal há algumas semanas. Trata-se de um jogo entre os capoeiristas Itapuã Beiramar e Guaxini do Mar. Logo de início, o video deixa claro que a roda em questão se desenrola em Londres, em dezembro do ano passado.

É um vídeo bem feito, com alguns recursos a mais do que os habituais e abundantes videos amadores, como várias câmeras, zoom e câmera lenta. O jogo é bastante bom, e o som razoável.

Mas a princípio o que mais me chama a atenção é a sua tonalidade esverdeada, consequência de uma luz fluorescente.

O ambiente em que se desenrola o jogo é uma sala pequena, acarpetada, com pequenas janelas. As músicas e o coro repetem sempre o tema do mar e da praia – “à beira mar” – e do lado de fora da pequena sala provavelmente temos a neve de um rigoroso inverno inglês. Tudo bem diferente das paisagens que provavelmente inspiraram estas músicas, bem distante do ar livre e do clima ameno em que se fizeram rodas de outrora.

Estou lendo “A Capoeira Escrava”, de Carlos Eugênio Líbano, e inevitavelmente fiquei pensando, diante deste jogo de angola muito bem jogado e teatralizado, como seria a capoeira angola antes de Pastinha, mais perto do século XIX de que trata o livro. Certamente, muito diferente desta que reivindica a tradição-raiz, ainda que isto seja perfeitamente legítimo do ponto de vista de quem tece a própria cultura (desde que não transformado em extremismos que tolham a criatividade necessária à sua continuidade).

Temos apenas fragmentos do que poderia ter sido aquela capoeira das ruas das cidades escravas, a capoeira “à beira mar” das zonas portuárias, onde vidas e mercadorias eram trocadas constantemente. Temos apenas os relatórios policiais de Carlos Eugênio, apenas os testemunhos orais sinuosos e lacunares dos mestres que vieram depois.

É a tarefa de quem produz e reproduz a cultura construir as pontes e os sentidos entre esses fragmentos? Não há verdade possível, mas há muitos caminhos possíveis no esgarçar e cozer da tradição. Não foi assim que os negros escravizados, a partir dos fragmentos que lhes restavam, e a partir de tantos retalhos diversos e irreconhecíveis de outras etnias, reinventaram a sua cultura?

É talvez o que está fazendo o abeiramar.tv e seus atores quando colocam conteúdo na rede. Eles estão ligando a sala esverdeada em algum lugar de Londres aos mares do Brasil e também a outros mares. E em todas as beira-mares, saberão que mesmo no inverno londrino, dentro de uma pequena sala com luz fria, é possível fazer uma roda banhada pelo saber que se encontra disperso na rede.

Está à beira-mar todo aquele que possa ser banhado pelo oceano informativo.

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Treinéis, contramestres, instrutores e suas vozes na rede

Pesquisar na rede é uma errância sem começo nem fim. E sem um mínimo de previsibilidade. É sempre uma experiência desconcertante.

Estava eu hoje procurando informações sobre Mestre Canjiquinha, para o trabalho que preciso entregar para o cordão verde-amarelo, que acabo de pegar. E então me deparei com duas coisas bem interessantes:

http://blogdotreineu.blogspot.com/2009/01/mestre-canjiquinha-e-o-espirito-da.html

 

http://mestrandosevero.esporteblog.com.br/7706/Mestre-Canjiquinha/

 

Bem, são blogs sobre capoeira, e até aí não têm nada de extraordinário. Mas o que me chama atenção são os seus autores, que, a exemplo de outros sites, blogs e comunidades que encontrei por aí, não são mestres, mas sim contramestres, professores, instrutores, ou treinéis, como se diz entre os angoleiros. São provavelmente os jovens, já autorizados por seus mestres a ensinarem os mais novos (portanto, já dotados de algum saber reconhecido pelo mestre e pela comunidade), e que provavelmente se tornarão a próxima geração de mestres de capoeira.

O fato destes indivíduos se destacarem como produtores de conteúdo na rede vai ao encontro de uma das minhas quase-hipóteses: com sua voz e sensibilidade voltadas para uma comunidade muito maior do que o grupo que o cerca, esta nova geração vê a importância de colocar seu conhecimento na rede, e atrela seu reconhecimento como portadores do saber da cultura a uma comunidade mundial de interlocutores conectados.

Numa rápida olhada, pude ver que os blogs têm alguns interlocutores, que comentam os posts. Os autores estabelecem com eles um diálogo, colocando seu saber na rede e também em rede, transformando seus textos em hipertextos. De certa maneira, isto se encaixa bem no contexto contemporâneo da cultura, como escrevi na minha quali: cultura como arena de disputa e de agência, mais do que como consenso e saber tácito. A rede torna-se um espaço privilegiado de agência na arena cultural.

 

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Daqui pra frente

O seminário com o pessoal do Atopos foi super legal pra colocar nos eixos muitas das coisas q eu andava pensando pra efetivamente fazer a pesquisa. Eles me ajudaram a enxergar alguns caminhos e algumas possibilidades de foco.

Junte-se a isso algumas horas de ócio no sol, um bloquinho e uma caneta, e a cabeça, ainda que preguiçosamente, pensando. Foi a receita perfeita pra colocar as ideias no lugar e estruturar, pela primeira vez de uma maneira firme, como continuar a minha pesquisa. Vamos lá.

Duas dicas merecem absoluto destaque: a ideia de provocar a rede (do Cadu), que é justamente o que eu queria ter como método, e o alerta para definir que tipo de transformações eu quero estudar (dica da Adriana). Vamos então tentar definir as dimensões dessa “transformação cultural” da capoeira, que é meu “objeto” de estudo.

Até agora, é possível separar as dimensões da transfomação em três tipos:

Transformações econômicas

Isso envolve coisas como as aulas ou workshops de capoeira como fonte de renda, o comércio de artefatos ligados à prática, e mesmo o turismo cultural que é gerado a partir da diáspora da capoeira pelo mundo (motor de novas circulações). Essas transformações, como as outras, são fruto de uma articulação complexa entre alguns fluxos disjuntivos (Appadurai), como os ethnoscapes (fluxos migratórios), financescapes (fluxos de grana) e mediascapes (fluxos de imagens e imaginários).

Transformações de forma

Envolve coisas como mudanças ou adaptações nas práticas, nos rituais e nas performances. Talvez a gente possa dizer algo sobre o “mise en scene” (é assim que se escreve?) da capoeira. Pode ser q as relações com a câmera e o video entrem bastante aqui.

Transformações de significado

Aqui entra o que pensam os agentes, as definições e significados que a capoeira assume, e as suas diferentes possibilidades de tradução – de antemão, já podemos identificar: como esporte, como tradição ou resistência; ou como cidadania.

Aqui também cabe uma questão que até agora tem sido uma das fundamentais da minha pesquisa: que negociações e diálogos a capoeira precisa estabelecer com as alteridades culturais?

Todas essas transformações influem nos processos de transmissão e reprodução da cultura, que também sofrem mudanças e adaptações.

E aí é que está o pulo do gato. TCHARAMMM…. Por que eu decidi focar e aprofundar justamente essa dimensão, ou seja, as transformações na relação com o saber da cultura. E desse jeito também consigo envolver todos os agentes, dos mestres aos discípulos mais novatos, porque todos são afetados, em maior ou menor grau, por essa dimensão da digitalização.

E então, aqui, entram:

- Os processos de ensino e de aprendizagem

- Os agentes autorizados a transmitir o saber

- As relações de poder e de hierarquia

- O reposicionamento da figura do mestre nesse novo contexto

- A disponibilidade e acessibilidade do conhecimento no ciberespaço

Então vamos finalmente aos COMOS e às tarefas de fato.

PASSO 1

Antes de focar na questão da relação com o saber, a ideia é provocar a rede a respeito das diversas dimensões da transformação, como descrevemos acima. Pretendo fazer essas “provocações” por meio de vídeos e entrevistas (se possível filmadas).

Logo, é preciso CRIAR um canal no Youtube e uma página no Face para a minha pesquisa. Estes serão espaços de discussão onde vou tentar dialogar com os caponautas. O meu blog fica sendo mesmo um lugar mais de reflexão, aberto, é claro – mas percebo que as pessoas se interessariam, provavelmente, mais pelos vídeos do que pelos meus textos.

Devo até mesmo considerar a possibilidade de gravar videologs com as reflexões que eu gostaria de compartilhar e discutir. Considerarei com carinho, também, a sugestão do Abdo de utilizar a webcam pra fazer as entrevistas e gravar meus próprios videos.

PASSO 2

Aprofundar a discussão sobre o saber com os diferentes sujeitos e com os agentes mais envolvidos na rede, na forma de entrevistas com:

- Mestres

- Contramestres e professores

- Colegas do meu grupo

- Intercambistas

- Caponautas mais ativos

- Comunidades ou pessoas escolhidas

- Produtores de conteúdo mais ativos: perfis no youtube, editores do Portal Capoeira, Páginas e perfis no Facebook etc

Tchans. Agora é fazer.

 

 

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O circuito que me espreita

É tarde e o cansaço em breve me vencerá. Não vou conseguir escrever o longo post que eu havia planejado, mas quero deixar registrado aqui um fato que ocorreu hoje.

Um dos sujeitos que tenho observado, o @teimosia -  grande produtor de conteúdo sobre capoeira no Youtube – respondeu a um meu comentário ao vídeo que postou.

http://www.youtube.com/watch?v=8uMRFKwD4ZQ em 25/11/2011

Parece banal, especialmente levando em consideração os novos paradigmas de interação a que as redes digitais nos levam. Ele postou, eu comentei, ele respondeu. Mas na posição de pesquisadora, tendo elaborado para mim uma metodologia que defende a imersão e a interação com o circuito de pesquisa – não o chamo de objeto – o que experimento diante disso é um misto de excitação triunfante e assombro.

Sensação semelhante à que experimentei há alguns meses quando, tendo começado a seguir dezenas de perfis de capoeiristas e grupos de capoeira no Twitter, alguns dele começaram também a me adicionar. Afinal, o observado me olha de volta – e eu esperava que ele olhasse – e me mostra o reposicionamento do papel do pesquisador na rede: não sou diferente, nem estou acima, nem vejo mais do que ninguém; estou emaranhada em uma rede labiríntica em meio aos meus iguais: homens-máquina, atores-rede em algum lugar do globo onde chegue uma conexão.

Lembra um pouco a desconcertante  capa do livro do Malinowsky (Argonauts of the Western Pacific), em que um dos fotografados fita a câmera, e denuncia a presença (e talvez a intrusão) do etnólogo. Talvez eu tenha que me acostumar com essa sensação permanente de desconcerto ao longo da pesquisa.

Ainda bem.

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A velha e boa origem

Passo para deixar aqui um link de uma reportagem que a @livelivia me mandou:

http://viajeaqui.abril.com.br/materias/capoeira-bahia-angola?utm_source=twitter&utm_content=ngbrasil

É só uma pena que as pessoas insistam tanto em falar de cultura a partir das ideias de origem e autenticidade… Mas ao mesmo tempo fica evidente, no artigo, como a expansão de uma rede pode revitalizar – e quase sempre revitaliza – o seu “bulbo-semente”.

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Seminário Atopos

É véspera de feriado, data palíndromo e daqui a pouco vai cair uma chuva do medo. É neste cenário que, dentro de uma hora vou apresentar minha pesquisa no Seminário do Atopos.

Vou colocar aqui o prezi que apresentarei: http://prezi.com/n0bgncjeyljh/2-a-roda-em-rede-a-capoeira-em-ambientes-digitais/

Tomara que o apocalipse não mie o meu seminário… E espero q as pessoas estejam inspiradas pra me ajudar a recortar meu objeto… digo, circuito!

 

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